Oestoicismo está “viralizado”. E a escolha do adjetivo não poderia ser mais adequada, pois há uma verdadeira pandemia de estoicismo nas redes sociais. Porém, trata-se de uma cepa mutante, bem distante da linhagem grega original. Nesta variante, o estoicismo é vendido como produto de “nova era”, correndo o risco de ser confundido com manuais de autoajuda no estilo “pense e enriqueça” ou “olhe no espelho e diga para si mesmo que tudo melhora a cada dia!”. Quase não se fala de propedêutica (o ensino introdutório), tampouco de sofrósine (moderação) ou de eusebia (piedade) — conceitos centrais que, no mundo antigo, eram a verdadeira “moda” quando o estoicismo estava no auge.
Um blend de estoicismo com o movimento do “pensamento positivo” (conhecido como Novo Pensamento), que está profundamente enraizado na cultura de massas dos Estados Unidos e nas novas doutrinas cristãs, formaram um elixir espiritual, ratificante de uma das maiores preciosidades do capitalismo: a meritocracia. Afinal, se fracassei, a culpa é minha: não mudei meus pensamentos, não pensei positivamente, não visualizei e atraí o sucesso, ou não orei e contribuí com o dízimo o suficiente. Em uma rápida busca no YouTube, descobri influenciadores que ensinam a ter “frieza emocional” ou “blindagem contra o sofrimento”, que nada tem de estoicismo. O estoicismo não visava reprimir emoções, pensar o estoicismo dessa forma é parodiá-lo.
Em contrapartida, há um “estoicismo” de linhagem mais legítima presente na atualidade. Albert Ellis, criador da Terapia Racional-Emotiva Comportamental (TREC), reconheceu abertamente que o estoicismo foi uma das pedras fundamentais de sua abordagem. Não por acaso, alguns de seus livros se iniciam com epígrafes de Epicteto. Tal como os estoicos, Ellis entendia que o sofrimento humano não vem diretamente das circunstâncias externas, mas das interpretações e crenças que construímos sobre elas. A TREC parte dessa premissa: ao identificar e modificar crenças irracionais, podemos reduzir o sofrimento emocional e, assim como no estoicismo, cultivar virtudes e autocontrole, mantendo a serenidade diante do inevitável.
Ambos ensinam que o sofrimento humano não vem dos acontecimentos, mas das crenças e interpretações que fazemos sobre eles. Assim como os estoicos falavam da dicotomia do controle (focar no que depende de nós), Ellis propõe questionar pensamentos irracionais e substituí-los por crenças mais racionais. A meta comum é alcançar a tranquilidade emocional (apatheia) e a autoaceitação, mantendo o equilíbrio diante das adversidades. Tanto o estoicismo quanto a TREC valorizam a razão, a virtude e a prática constante de autodomínio e reflexão como caminhos para uma vida mais serena e consciente.
Uma abordagem bem distante do mundo de Poliana.





