Erich Fromm

 Erich Fromm

Erich Fromm é o sujeito que quebrou minhas ideias ao meio. Aconteceu-me aos meus exatos 25 anos, quando fui a um sebo perto do metrô Anhangabaú e de lá peguei o livro Medo à Liberdade da estante. Trabalhava no antigo prédio da Light, hoje o shopping homônimo. A única referência ao autor do livro era ser citado constantemente por Flávio Gikovate, psiquiatra que comandava um programa na rádio CBN: “No divã do Gikovate”. O doutor colocava-o no panteão dos estudiosos da mente, ao lado de Ortega y Gasset, Otto Rank, entre outros. Mas o único da lista que estava lá, à disposição das vistas, era o livro de Fromm.

Tinha saído de Uberlândia há poucos meses, numa crise existencial danada e com desencaixe sociológico. A Pauliceia Desvairada era a única opção, até porque meus pais já estavam lá , bem, pelo menos era plausível estarem. Minha mãe com certeza estava, morava no bairro de Itaquera. Já meu pai estava sumido. Da última vez que o vi, seis anos antes da compra do livro, morava no Brás. No Triângulo Mineiro me matriculei no curso de Filosofia na universidade federal, mas quase não ia, pois trabalhava como agente de marketing, viajando do norte de São Paulo ao sul de Goiás. Com a juventude e a solidão, o álcool começou a fazer parte da minha vida com grande frequência, até nos tornarmos inseparáveis.

Voltando ao livro, comecei a lê-lo na primeira semana em que o adquiri e, logo de cara, me fascinei. Só pelos títulos dos capítulos, como “A Liberdade – Um Problema Psicológico”, “Mecanismos de Fuga”, “A Psicologia do Nazismo”, “Liberdade e Democracia”, percebi que ia mexer em um vespeiro profundo. Acho que era isso que queria e isso que precisava para tentar sondar minha psique. Tinha lido Freud e Jung, mas não me desceram bem os conceitos de ambos. Já Fromm acertava em cheio ao descrever cientificamente como o mundo pós-industrial afeta o comportamento humano a ponto de transformá-lo em neurótico. E eu era, e sou, um deles. Assim como toda a humanidade, uns mais, outros menos.

Havia alguém que analisara a sensação de insignificância, ansiedade, solidão, a “liberdade angustiante” e meus processos de fuga. Disse ainda que, quando o indivíduo se sente impotente na sociedade, ele pode até destruir o mundo. E um líder autoritário pode vender para esse sujeito pertencimento, identidade e sentido.

Fromm é atual e merece não ser esquecido.

Gikovate tinha razão.