Os Warao (povos da canoa em sua língua nativa) são um povo indígena originário do delta do rio Orinoco, na Venezuela. Alguns sites apontam que sua população é formada por 20 mil a 70 mil pessoas. Estudos arqueológicos apontam a existência do grupo étnico há sete ou oito mil anos, o que nos dá a ideia da dimensão da construção e riqueza cultural que esse povo carrega.
Nas últimas décadas, especialmente a partir de 2015, intensificou-se o processo migratório dos Warao para o Brasil. Infelizmente, tem sido comum ver membros do grupo sobreviverem graças à solicitação de ajuda nas ruas, o que muitas vezes gera preconceito e incompreensão por parte da população local. O que poucos sabem é que o sofrimento dos Warao é mais antigo e dramático.

Pressão e marginalização territorial
O processo de vulnerabilização da etnia começa na década de 1930. A exploração petroleira, além da extração de madeira e do processo de urbanização da região, causou uma série de danos ao ecossistema do delta onde viviam e fez com que parte do povo Warao se deslocasse para as cidades. Outra parte da população, que buscou áreas rurais, sofreu com a expansão agrária e a invasão de fazendeiros e novos habitantes em seu território.
Recentemente, a crise econômica, política e humanitária vivida na Venezuela, somada à expansão pecuária e à ação de narcotraficantes, provocou escassez de alimentos, dificuldade de acesso à saúde e precarização das condições de vida, o que forçou muitas famílias Warao a deixarem seu território tradicional em busca de sobrevivência.
Pressionados ambientalmente, marginalizados economicamente e atingidos por uma crise nacional, só havia uma saída: migrar.
Segundo a ACNUR, Agência da ONU para Refugiados, os Warao passaram a migrar para o Brasil a partir de 2014. Inicialmente concentrados em Roraima e no Amazonas, esses indígenas se espalharam progressivamente por todas as regiões do país até 2020. A chegada desse grupo, sem histórico anterior no território brasileiro, gerou desafios para o atendimento público, especialmente devido às suas vulnerabilidades e às especificidades culturais ainda pouco conhecidas no país. A agência tem em seu banco de dados cerca de 4 mil Warao cadastrados.
Fragilidades assistenciais, uso político e xenofobia
Além de todo o suplício aqui mencionado, os Warao ainda sofrem preconceito tanto no ambiente civil quanto nas esferas institucionais desde que chegaram ao Brasil. Um exemplo foi, em meio à pandemia de COVID-19, quando a Operação Acolhida, do Exército Brasileiro, anunciou o despejo de 850 pessoas da comunidade Ka’Ubanoko, formada por imigrantes venezuelanos indígenas e crioulos. Operação esta que foi elogiada pelo ex-presidente Bolsonaro em conferência da ONU. Em outro caso, o Ministério Público Federal (MPF) entrou com ação contra radialistas e uma emissora de rádio de Belém (PA) após a veiculação de comentários racistas e xenofóbicos contra indígenas venezuelanos da etnia Warao, que foram chamados de “vagabundos” durante um programa.
Já a Defensoria Pública da Bahia e a Defensoria Pública da União (DPU) recomendaram à Prefeitura de Feira de Santana que se abstenha de práticas xenofóbicas contra indígenas venezuelanos, especialmente do povo Warao, após indícios de discriminação institucional e divulgação de informações que reforçariam preconceitos contra esses migrantes. Os órgãos destacam que tais atitudes violam direitos fundamentais e agravam a situação de vulnerabilidade dessas populações, orientando o poder público a adotar medidas de acolhimento digno, respeito à diversidade cultural e combate à xenofobia.

Boa Vista, RR-25/09/2017 – Abrigo dos indígenas Warao. (Foto: Yolanda Mêne/Amazônia Real)
Questão linguística reforça a marginalização:
O problema linguístico enfrentado pelos Warao no Brasil amplia o entrave à sua integração social e ao acesso a direitos básicos. Esse povo indígena possui como língua materna o warao, uma língua isolada, sem relação direta com o português, o que dificulta significativamente a comunicação no cotidiano. Embora alguns Warao também falem espanhol, muitos, especialmente idosos e crianças, não dominam nem o espanhol nem o português, o que amplia ainda mais sua vulnerabilidade. Essa barreira linguística impacta diretamente o atendimento em serviços públicos, como saúde, educação e assistência social, onde a ausência de intérpretes e de políticas linguísticas adequadas pode gerar desinformação, falhas no atendimento e exclusão.

A mais nova etnia indígena presente no país é um povo sem direitos, invisível e sem espaço para expressão.
Diante desse cenário, a situação dos Warao evidencia uma crise que vai além do deslocamento territorial, revelando a insuficiência das políticas públicas brasileiras em lidar com populações indígenas migrantes. Expulsos de seu território por fatores econômicos, ambientais e humanitários, esses sujeitos chegam ao Brasil em condição de extrema vulnerabilidade, enfrentando não apenas a precariedade material, mas também barreiras linguísticas, desarticulação institucional e práticas de preconceito, inclusive em contextos oficiais. Casos como ameaças de despejo e falhas no acolhimento demonstram que, embora existam iniciativas de assistência, estas ainda operam de forma limitada e, por vezes, desconsideram as especificidades culturais desse povo. Assim, a realidade dos Warao expõe a necessidade urgente de políticas públicas mais integradas, interculturais e efetivamente comprometidas com os direitos humanos, sob o risco de perpetuar processos de exclusão e invisibilização.
Para saber mais:
/https://www.brasildefato.com.br/2020/10/04/operacao-elogiada-por-bolsonaro-na-onu-despeja-venezuelanos-em-boa-vista-rr/
https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2024/02/28/em-acao-conjunta-defensoria-da-bahia-dpu-e-mpf-recomendam-a-prefeitura-de-feira-de-santana-que-nao-promova-xenofobia-contra-povo-indigena-venezuelano.ghtml
https://projetocolabora.com.br/ods16/despejo-ameaca-indigenas-venezuelanos-refugiados-em-boa-vista/
https://setades.es.gov.br/Media/Seadh/Lives%20-%20SUAS/Apresenta%C3%A7%C3%A3o%20ind%C3%ADgenas%20Warao_SETADES_17.06.21.pdf
https://repositorio.ufu.br/handle/123456789/41173





