Waraos: a mais nova etnia indígena brasileira

Waraos: a mais nova etnia indígena brasileira

Os Warao (povos da canoa em sua língua nativa) são um povo indígena originário do delta do rio Orinoco, na Venezuela. Alguns sites apontam que sua população é formada por 20 mil a 70 mil pessoas. Estudos arqueológicos apontam a existência do grupo étnico há sete ou oito mil anos, o que nos dá a ideia da dimensão da construção e riqueza cultural que esse povo carrega.

Nas últimas décadas, especialmente a partir de 2015, intensificou-se o processo migratório dos Warao para o Brasil. Infelizmente, tem sido comum ver membros do grupo sobreviverem graças à solicitação de ajuda nas ruas, o que muitas vezes gera preconceito e incompreensão por parte da população local. O que poucos sabem é que o sofrimento dos Warao é mais antigo e dramático.

Boa Vista, RR-25/09/2017 – Abrigo dos indígenas Warao. (Foto: Yolanda Mêne/Amazônia Real)

Pressão e marginalização territorial
O processo de vulnerabilização da etnia começa na década de 1930. A exploração petroleira, além da extração de madeira e do processo de urbanização da região, causou uma série de danos ao ecossistema do delta onde viviam e fez com que parte do povo Warao se deslocasse para as cidades. Outra parte da população, que buscou áreas rurais, sofreu com a expansão agrária e a invasão de fazendeiros e novos habitantes em seu território.

Recentemente, a crise econômica, política e humanitária vivida na Venezuela, somada à expansão pecuária e à ação de narcotraficantes, provocou escassez de alimentos, dificuldade de acesso à saúde e precarização das condições de vida, o que forçou muitas famílias Warao a deixarem seu território tradicional em busca de sobrevivência.

Pressionados ambientalmente, marginalizados economicamente e atingidos por uma crise nacional, só havia uma saída: migrar.
Segundo a ACNUR, Agência da ONU para Refugiados, os Warao passaram a migrar para o Brasil a partir de 2014. Inicialmente concentrados em Roraima e no Amazonas, esses indígenas se espalharam progressivamente por todas as regiões do país até 2020. A chegada desse grupo, sem histórico anterior no território brasileiro, gerou desafios para o atendimento público, especialmente devido às suas vulnerabilidades e às especificidades culturais ainda pouco conhecidas no país. A agência tem em seu banco de dados cerca de 4 mil Warao cadastrados.

Fragilidades assistenciais, uso político e xenofobia
Além de todo o suplício aqui mencionado, os Warao ainda sofrem preconceito tanto no ambiente civil quanto nas esferas institucionais desde que chegaram ao Brasil. Um exemplo foi, em meio à pandemia de COVID-19, quando a Operação Acolhida, do Exército Brasileiro, anunciou o despejo de 850 pessoas da comunidade Ka’Ubanoko, formada por imigrantes venezuelanos indígenas e crioulos. Operação esta que foi elogiada pelo ex-presidente Bolsonaro em conferência da ONU. Em outro caso, o Ministério Público Federal (MPF) entrou com ação contra radialistas e uma emissora de rádio de Belém (PA) após a veiculação de comentários racistas e xenofóbicos contra indígenas venezuelanos da etnia Warao, que foram chamados de “vagabundos” durante um programa.

Já a Defensoria Pública da Bahia e a Defensoria Pública da União (DPU) recomendaram à Prefeitura de Feira de Santana que se abstenha de práticas xenofóbicas contra indígenas venezuelanos, especialmente do povo Warao, após indícios de discriminação institucional e divulgação de informações que reforçariam preconceitos contra esses migrantes. Os órgãos destacam que tais atitudes violam direitos fundamentais e agravam a situação de vulnerabilidade dessas populações, orientando o poder público a adotar medidas de acolhimento digno, respeito à diversidade cultural e combate à xenofobia.

Warao em Boa Vista (Foto Yolanda Simone/Amazônia Real)

Boa Vista, RR-25/09/2017 – Abrigo dos indígenas Warao. (Foto: Yolanda Mêne/Amazônia Real)

Questão linguística reforça a marginalização:
O problema linguístico enfrentado pelos Warao no Brasil amplia o entrave à sua integração social e ao acesso a direitos básicos. Esse povo indígena possui como língua materna o warao, uma língua isolada, sem relação direta com o português, o que dificulta significativamente a comunicação no cotidiano. Embora alguns Warao também falem espanhol, muitos, especialmente idosos e crianças, não dominam nem o espanhol nem o português, o que amplia ainda mais sua vulnerabilidade. Essa barreira linguística impacta diretamente o atendimento em serviços públicos, como saúde, educação e assistência social, onde a ausência de intérpretes e de políticas linguísticas adequadas pode gerar desinformação, falhas no atendimento e exclusão.

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Delta_de_Orinoco,_pueblo_de_Warao.JPG

A mais nova etnia indígena presente no país é um povo sem direitos, invisível e sem espaço para expressão.

Diante desse cenário, a situação dos Warao evidencia uma crise que vai além do deslocamento territorial, revelando a insuficiência das políticas públicas brasileiras em lidar com populações indígenas migrantes. Expulsos de seu território por fatores econômicos, ambientais e humanitários, esses sujeitos chegam ao Brasil em condição de extrema vulnerabilidade, enfrentando não apenas a precariedade material, mas também barreiras linguísticas, desarticulação institucional e práticas de preconceito, inclusive em contextos oficiais. Casos como ameaças de despejo e falhas no acolhimento demonstram que, embora existam iniciativas de assistência, estas ainda operam de forma limitada e, por vezes, desconsideram as especificidades culturais desse povo. Assim, a realidade dos Warao expõe a necessidade urgente de políticas públicas mais integradas, interculturais e efetivamente comprometidas com os direitos humanos, sob o risco de perpetuar processos de exclusão e invisibilização.

Para saber mais:
/https://www.brasildefato.com.br/2020/10/04/operacao-elogiada-por-bolsonaro-na-onu-despeja-venezuelanos-em-boa-vista-rr/

https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2024/02/28/em-acao-conjunta-defensoria-da-bahia-dpu-e-mpf-recomendam-a-prefeitura-de-feira-de-santana-que-nao-promova-xenofobia-contra-povo-indigena-venezuelano.ghtml

https://projetocolabora.com.br/ods16/despejo-ameaca-indigenas-venezuelanos-refugiados-em-boa-vista/

https://setades.es.gov.br/Media/Seadh/Lives%20-%20SUAS/Apresenta%C3%A7%C3%A3o%20ind%C3%ADgenas%20Warao_SETADES_17.06.21.pdf

https://repositorio.ufu.br/handle/123456789/41173

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