Um dos grandes acontecimentos do anarquismo estadunidense e mundial foi a criação da Sociedade de Não-Resistência da Nova Inglaterra. A ideia da sociedade era restabelecer o ensinamento perdido no cristianismo de não resistir ao mal com violência. Dentre os pontos fascinantes da filosofia que guiava a sociedade, havia o não reconhecimento do governo humano e das distinções sociais pautadas em raças, nacionalidades e gênero. A Carta foi escrita em 1838 por vários membros da sociedade. Confira:
Declaração de princípios, aceita pelos membros da Sociedade criada
para o restabelecimento da paz universal entre os homens.
Boston, 1838.
Nós, abaixo assinados, acreditamos ter o dever, para conosco e para
com a causa tão cara a nossos corações, para com país em que vivemos e para
com o mundo inteiro, de proclamar a nossa fé, expressando os princípios que
professamos, a finalidade por nós buscada e os meios que temos intenção de
usar para chegar a uma revolução benéfica, pacífica e geral.
Eis os nossos princípios:
Não reconhecemos qualquer autoridade humana. Não reconhecemos
senão um só rei e legislador, um juiz e líder da humanidade. Nossa pátria é o
mundo inteiro; nossos compatriotas são todos os homens. Amamos todos os
países como nosso próprio país, e os direitos de nossos compatriotas não nos
são mais caros do que os de toda a humanidade. Por isto, não admitimos que o
sentimento de patriotismo possa justificar a vingança de uma ofensa ou de um
mal feito ao nosso país.
Reconhecemos que o povo não tem o direito de se defender dos inimigos
externos, nem de atacá-los. Reconhecemos ainda que os indivíduos isolados
não podem ter este direito em suas relações recíprocas, não podendo a unidade
ter direitos maiores do que os da coletividade. Se o governo não deve se opor
aos conquistadores estrangeiros que visam à ruína de nossa pátria e à destruição de nossos concidadãos,
da mesma forma não pode opor a violência aos
indivíduos que ameaçam a tranqüilidade e a segurança públicas.
A doutrina,
ensinada pelas igrejas, de que todos os países da terra são criados e aprovados
por Deus, e de que as autoridades, que existem nos Estados Unidos, na Rússia,
na Turquia etc. emanam de Sua vontade, não é apenas estúpida, como.
também blasfematória. Esta doutrina representa nosso Criador como um ser
parcial, que estabelece e encoraja o mal. Ninguém pode afirmar que as
autoridades existentes, em qualquer país que seja, ajam com seus inimigos
segundo a doutrina e o exemplo de Cristo. Nem mesmo seus atos podem ser
agradáveis a Deus. Não podem, portanto, ter sido estabelecidos por Ele, e
devem ser derrubados, não pela força, mas pela regeneração moral dos homens.
Não reconhecemos como cristãs e legais não apenas as guerras —
ofensivas ou defensivas — mas também as organizações militares, quaisquer
que sejam: arsenais, fortalezas, navios de guerra, exercícios permanentes,
monumentos comemorativos de vitórias, trofeus, solenidades de guerra,
conquistas através da força, enfim, reprovamos igualmente como anticristã
qualquer lei que nos obrigue ao serviço militar.
Em conseqüência, consideramos impossível para nós não apenas
qualquer serviço ativo no Exército, mas também qualquer função que nos dê a
missão de manter os homens no bem pela ameaça de prisão ou de condenação
à morte. Excluímo-nos, então, de todas as instituições governamentais,
repelimos qualquer política e recusamos todas as honrarias e todos os cargos
humanos.
Não nos reconhecendo o direito de exercer funções nas instituições
governamentais, recusamos também o direito de eleger para estes cargos outras
pessoas. Consideramos que não temos o direito de recorrer à justiça para nos
fazer ser restituído o que nos foi tirado e acreditamos que, ao invés de fazer uso
da violência, estamos obrigados a “deixar também o manto àquele que nos
roubou a veste” (Mt 5,40).
Preconizamos que a lei criminal do Antigo Testamento — olho por olho,
dente por dente — foi anulada por Jesus Cristo e que, segundo o Novo
Testamento, todos os fiéis devem perdoar seus inimigos em todos os casos, sem
exceção, e não se vingar. Extorquir dinheiro à força, prender, mandar para a
cadeia ou condenar à morte não se constitui, evidentemente, em perdão, e sim
em vingança.
A história da humanidade está cheia de provas de que a violência física
não contribui para o reerguimento moral e de que as más inclinações do
homem somente podem ser corrigidas através do amor; de que o mal não pode
desaparecer senão por meio do bem; de que não se deve contar com a força do
próprio braço para se defender do mal; de que a verdadeira força do homem
está na bondade, na paciência e na caridade; de que só os pacíficos herdarão a
terra e de que aqueles que com a espada ferirem pela espada perecerão.
Por isso, tanto para garantir com mais segurança a vida, a propriedade,
a liberdade e a felicidade dos homens, quanto para seguir a vontade d’Aquele
que é o Rei dos reis e o Senhor dos senhores, aceitamos de todo o coração o
princípio fundamental da não-resistência ao mal por meio do mal, porque
acreditamos firmemente que este princípio, que atende a todas as circunstâncias
possíveis da nossa existência e ao mesmo tempo exprime a vontade de
Deus, deve finalmente triunfar.
Não pregamos uma doutrina revolucionária. O
espírito da doutrina revolucionária é um espírito de vingança, de violência e de
morte, sem temor a Deus e sem respeito pela personalidade humana, e não
queremos nos deixar penetrar senão pelo espírito do Cristo. Nosso princípio
fundamental de não-resistência ao mal por meio do mal não nos permite
insurreições, nem rebeliões, nem violências. Submetemo-nos a todas as regras
e a todas as exigências do governo, exceto àquelas que sejam contrárias aos
mandamentos do Evangelho. Não resistiremos de outra forma a não ser
submetendo-nos passivamente às punições que poderão ser infligidas devido à
nossa doutrina. Suportaremos todas as agressões sem deixar de, pelo nosso
lado, combater o mal onde quer que o encontremos, no alto ou embaixo, no
terreno político, administrativo ou religioso, e procuraremos atingir,
servindo-nos de todos os meios possíveis, a fusão de todos os reinos terrestres num só
reino de Nosso Senhor Jesus Cristo. Consideramos como verdade indiscutível
que tudo aquilo que seja contrário ao Evangelho deve ser definitivamente
destruído.
Acreditamos, como o profeta, que virá um tempo em que as espadas
serão transformadas em relhas e as lanças em foices, e que devemos trabalhar
sem demora, na medida de nossas forças, para a concretização dessa profecia.
Em conseqüência, aqueles que fabricam, vendem ou se servem de armas
contribuem para os preparativos da guerra e se opõem pela mesma razão ao
poder pacífico do Filho de Deus na Terra.
Após a exposição de nossos princípios, dizemos agora de que modo
esperamos alcançar nosso objetivo. Esperamos vencer “por meio da loucura da
pregação”.
Procuraremos difundir nossas idéias entre todos os homens, pertençam
eles a qualquer nação, religião ou classe social. Para tanto, organizaremos
palestras públicas, difundiremos programas e opúsculos, constituiremos
sociedades e enviaremos petições a todas as autoridades públicas.
Em suma, empenhar-nos-emos, com todos os meios de que
dispusermos, para produzir uma revolução radical nas opiniões, nos
sentimentos e nos costumes da nossa sociedade, em tudo o que concerne à
ilegitimidade da violência contra os inimigos internos ou externos.
Empreendendo esta grande obra, compreendemos perfeitamente que nossa
sinceridade talvez nos prepare cruéis provações.
Nossa missão pode nos expor a muitos ultrajes e a muitos sofrimentos,
e também à morte. Seremos incompreendidos, ridicularizados e caluniados.
Uma tempestade se erguerá contra nós. O orgulho e a hipocrisia, a ambição e a
crueldade, os chefes de Estado e os poderosos, tudo pode se voltar contra nós.
Não foi de outro modo tratado o Messias que procuramos imitar na medida de
nossas forças. Mas tudo isto não nos amedronta. Não colocamos nossa
esperança nos homens, mas no Nosso Senhor Onipotente. Se recusamos
qualquer proteção humana, é porque temos para nos sustentar apenas a nossa
fé, mais poderosa do que tudo. Não nos maravilharemos com as provações e
ficaremos felizes por haver merecido poder compartilhar dos sofrimentos de
Cristo.
Assim, então, entregamos nossas armas a Deus, confiantes em Sua
palavra de que aquele que abandonar campos e casas, irmão e irmã, pai e mãe,
mulher e filhos, para seguir Cristo, receberá cem vezes mais e herdará a vida
eterna.
Acreditando firmemente, apesar de tudo o que poderia cair sobre nós,
no indubitável triunfo, em todo o mundo, dos princípios expostos nesta
declaração, aqui pomos nossas assinaturas, confiando no bom senso e na
consciência dos homens, mas ainda mais no poder divino, ao qual nos reportamos.
William Lloyd Garrison (10 de dezembro de 1805 – 24 de maio de 1879) foi um abolicionista
e jornalista. Figura importante do cristianismo anarquista.
Para saber mais:
TOLSTÓI, Lev. O reino de Deus está em vós. São Paulo: Martin Claret, 2005.






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