
COMO EM UM ENSAIO ALQUÍMICO, O BLUES NASCEU — OU FOI REDESCOBERTO — PELOS NEGROS NO PERÍODO PÓS-ESCRAVIDÃO DOS ESTADOS UNIDOS
Como em um ensaio alquímico, o blues nasceu — ou foi redescoberto — pelos negros no período pós-escravidão dos Estados Unidos. Retratando a transição da vida rural para os centros urbanos, foi o acompanhamento sonoro de muitos desses migrantes no começo do século XX. Proibidos de encostar nos tambores de seus antepassados, muitos músicos aprenderam a tocar instrumentos favoritos dos anglo-saxônicos das adorações cristãs no campo. Mas seus violões, pianos, gaitas e coros vocais carregavam algo que nenhum colonizador sádico conseguiu apagar, pois a alma é inviolável — e é lá que mora a blue note, que, em uma visão teórica, é um semitom abaixo da quinta justa ou acima da terça maior.
“Call It Stormy Monday (But Tuesday Is Just as Bad)” canção de T-Bone Walker
Segundo B. B. King, este texano nascido em 1910 parecia o próprio Jesus retornado à Terra e tocando guitarra elétrica. Walker tinha um estilo cool de tocar, com amplitude melódica e técnica saída do coração, além de contratempos fantásticos. Sua banda trazia elementos das big bands dos anos 1920-1940, o que dava um toque refinado somado a um frescor dançante — um jazz blues com pitadas de R&B primitivo. Foi admirado por Hendrix, que o imitava tocando guitarra com mordidas. Esta gravação foi a causadora da epifania de B. B. King citada acima.
“Too Late to Cry” canção de Lonnie Johnson
Nascido em Nova Orleans em 1899, Lonnie tinha a capacidade de transmitir dor e doçura ao palhetar seu violão acústico. A mágoa de seu toque pode ter sido influenciada por um fato trágico: em 1917, viajou para a Inglaterra como parte de um grupo de artistas para tocar e trabalhar em navios de cruzeiro. Ao retornar aos Estados Unidos, em 1919, descobriu que a maior parte de sua família havia morrido — provavelmente vítima da pandemia de gripe espanhola. Seguiu ativo e bem-sucedido na época da eletrificação dos violões, fazendo diversas experimentações. É considerado pelo renomado historiador do blues Gérard Herzhaft como o criador do solo de guitarra. Inclusive, nesta faixa há um solo majestoso.
“Love in Vain” canção de Robert Johnson
Nesta gravação é possível ouvir a locomotiva estremecendo o chão ao chegar na estação, sentir o vazio no peito do cabra e perceber a transfiguração dos seus sentimentos nas luzes do trem. Se o estilo blues necessitasse de um porta-voz, parece-me que Robert foi o escolhido para tal encargo. Sua técnica de slide, afinações abertas e compasso serviram de fonte para inúmeros músicos — dos bluesmen de Chicago aos roqueiros ingleses dos anos 60, que o idolatraram. Sua vida foi cercada de mistérios: nasceu entre 1909 e 1912 (há grande controvérsia nos registros da época) no Mississippi. Robert personifica a lenda de se fazer um pacto com o tinhoso na famosa encruzilhada, tal como se dizia que os bons violeiros do interior do Brasil faziam. Mas parece que lhe faltou ser benzido para ter o corpo fechado: morreu três dias após beber uísque com estricnina, dado pelo dono de um bar, após vê-lo flertar com sua namorada. Considero “Love in Vain” a sua joia de assinatura, um maná que foi bebido por grandes talentos da música ocidental.
“Dark Was the Night, Cold Was the Ground” cançaõ de Blind Willie Johnson
Eis uma música que pode estar sendo escutada no espaço interestelar neste exato momento! É claro, desde que o ouvinte galáctico tenha uma vitrola para reproduzir o disco de ouro que viaja na nave Voyager. Um blues sagrado vindo de um evangelista cego e enfermo. Sua vida não foi bem documentada devido à negligência e à discriminação da administração pública da época com negros e pobres (modus operandi atual, infelizmente). Nascido em 1897, no Texas, o peregrino Willie gravou este blues gospel em 1927, cujo título deriva de um hino chamado “Escura era a noite e frio o chão onde Jesus se prostrou”. A causa mais aceita de sua cegueira foi o ataque de sua madrasta, que jogou soda cáustica em seu rosto durante uma briga familiar. Entre orações, fome e dificuldades físicas, Willie compôs uma canção que hoje se encontra a mais de 25 bilhões de quilômetros do planeta Terra. Parece que entendo tudo que sai de sua voz e do gemido de sua guitarra.
Para saber mais:
1. Americana, T-Bone Walker – Blues Matters Magazine. “Blues Birthday: T-Bone Walker – 28th May 1910”. Publicado em 28 de maio de 2021. Disponível em Blues Matters Magazine. Acesso em 11 de agosto de 2025. bluesmatters.com
2. “Lonnie Johnson – Biography, Songs, & Facts”. Encyclopaedia Britannica. Acesso em 11 de agosto de 2025. Encyclopedia Britannica
3. Robert Johnson Blues Foundation. “Timeline”. Acesso em 11 de agosto de 2025. Robert Johnson Blues Foundation
4. “Blind Willie Johnson – All About Jazz”. All About Jazz. Acesso em 11 de agosto de 2025. All About Jazz





